Gustavo Ribeiro
A campanha ao primeiro turno das eleições municipais no Brasil ocorreu em um cenário ambiental adverso, no qual os efeitos pervasivos do aquecimento global, e das ações humanas a ele relacionadas, fizeram-se sentir na forma da maior seca já registrada em território nacional e das queimadas que afetaram substancialmente a maioria dos biomas brasileiros. Acrescente-se a isso a memória e as consequências ainda presentes da tragédia climática ocorrida no Rio Grande do Sul durante abril e maio deste ano e a questão ambiental poderia vir a se tornar um fator primordial para se entender as tendências do pleito. Porém, após abertas as urnas, alguns resultados parecem contradizer essa expectativa – sejam eles a competitividade de Sebastião Melo (MDB), prefeito de Porto Alegre durante as enchentes do início do ano, ou a eleição de Prefeitos envolvidos em crimes ambientais, especialmente nas áreas mais afetadas pelas queimadas.
Certamente, com os resultados recém totalizados, ainda há muito o que se fazer para analisar as possíveis influências ambientais sobre as escolhas eleitorais municipais. No entanto, com os elementos preliminares disponíveis nesta primeira hora, já é possível fazer alguns exercícios de interpretação sobre tal possibilidade. Aqui será abordado, primordialmente, o caso dos municípios mais afetados por queimadas e incêndios florestais ao longo do ano. Dessa forma, a Tabela 1 começa por compilar os resultados eleitorais em dez deles – especificamente os com mais focos em setembro último, de acordo com dados da Coalizão Brasil Clima e do INPE, publicados pelo G1:
Tabela 1 – Resultados do primeiro turno das eleições municipais 2024 em municípios afetados por queimadas (% de votos válidos)
| Município | (I) Incumbente | (O) Oposição | Demais Candidatos | Satus |
| São Félix do Xingú (PA) | 43,41 | 49,23 | 7,36 | (O) Eleito |
| Altamira (PA) | 23,33 | 32,47 | 44,2 | (O) Eleito |
| Corumbá (MS) | 56,74 | 21,3 | 21,96 | (I) Eleito |
| Novo Progresso (PA) | 81,61 | 18,39 | 0 | (I) Eleito |
| Apuí (AM) | 42,73 | 41,67 | 15,6 | (O) Eleito |
| Lábrea (AM) | 47,49 | 51,27 | 1,24 | (O) Eleito |
| Itaituba (PA) | 48,26 | 41,62 | 10,12 | (I) Eleito |
| Porto Velho (RO) | 44,53 | 25,65 | 29,82 | 2º Turno |
| Colniza (MT) | 78,56 | 21,44 | 0 | (I) Eleito |
| Novo Aripuanã (AM) | 50,09 | 42,7 | 7,21 | (I) Eleito |
Fonte: TSE (2024); Elaboração própria do autor.
Há de se notar uma pluralidade de resultados favoráveis aos incumbentes ou a candidatos por eles apoiados nesses municípios – ao final do processo eleitoral, seis podem vir a ser as candidaturas de continuidade eleitas, caso Mariana Carvalho (UNIÃO) confirme seu favoritismo no segundo turno, em Porto Velho. Consequentemente, eles impõem alguns questionamentos – os eleitores de municípios como esses recompensaram eleitoralmente seus Prefeitos, ou candidaturas por eles apoiadas, mesmo experienciando os impactos causados pelas queimadas? E, sobretudo, essa é uma realidade que se reproduz mais amplamente nas regiões nas quais eles se localizam? Em última análise, para que as respostas a ambas as questões sejam afirmativas, seria necessário um certo nível de atitude blasé em relação às queimadas nas regiões que elas ocorrem. No entanto, não é isso que acontece, ao menos no contexto amazônico – o qual será aqui analisado em maior detalhe.
Coordenei, no primeiro semestre deste ano, um projeto intitulado Pesquisa de Valores Ambientais e Atitudes sobre a Amazônia (PVAAA). Ele consistiu em um survey sobre opinião pública e meio ambiente entre os públicos brasileiro e amazônida. Dentre as várias questões nele presentes, algumas foram direcionadas unicamente aos moradores da região Norte do Brasil. Assim, foi possível identificar, por exemplo, qual o principal problema da região amazônica, conforme suas percepções. As respostas estão resumidas na imagem a seguir:
Imagem 1 – Principais problemas da região amazônica
Fonte: PVAAA
Conforme se pode notar, desmatamento e queimadas são, de longe, os principais problemas apontados – tomados em conjunto, totalizam cerca de 43% das respostas. Utilizando esse dado como base, não dá para desconsiderar a centralidade que esses temas têm publicamente na região.
Assim sendo, se, por um lado, não é possível fazer uma associação direta entre informações como essas e os dados eleitorais expostos anteriormente, por outro, é plausível asseverar que elas desencorajam a adoção de explicações que minimizem a capacidade do público da região Norte de compreender a severidade desses fenômenos. Consequentemente, se o prefeito de algum município nela localizado foi reeleito durante as queimadas, isso ocorreu sem que elas fossem excluídas dos cálculos do eleitorado. Ademais, se a visão de mundo majoritária na região é perpassada justamente pela identificação dessas queimadas como um dos seus principais problemas, isso torna a reeleição de prefeitos a elas negativamente associados um problema mais local do que geral. Em suma, para ensaiar respostas bastante provisórias às questões acima, (a) se os eleitores vêem negativamente as queimadas, mas elegem prefeitos apesar delas, isso ocorre, provavelmente, ou por priorizarem outros temas na hora de avaliar e escolher candidaturas ou por deslocarem a agentes públicos diversos as responsabilidades sobre elas. Além disso, (b) especificamente no contexto amazônico, esse tipo de escolha é, sobretudo, situado nos públicos de algumas municipalidades.
Mas, afinal, nesses contextos locais, qual o motivo para que resultados eleitorais como aqueles ocorram? Um dos fatores que estão relacionados à falta de saliência eleitoral das questões ambientais é o próprio tipo de recrutamento de candidaturas que é feito nessas localidades. Daquela lista dos municípios campeões de queimadas, são notórios casos como o de Novo Progresso (PA), palco no qual ocorreu a disputa do “Madereiro contra o Garimpeiro” – isto é, do prefeito reeleito Gilson Dill (MDB), ligado a atividades de desmatamento, que acumula milhões de reais em multas aplicadas por IBAMA e ICMBio, contra seu opositor, Juscelino Alves (Podemos), piloto de avião que tem como principais clientes garimpeiros da região. Essa realidade se repete em São Félix do Xingú (PA), no qual tanto o atual prefeito, João Cleber Torres (MDB), quanto o que se sagrou eleito no último domingo, Fabrício Batista (Podemos) foram igualmente multados por crimes ambientais. Há ainda casos mais extremos, como em Lábrea (AM), no qual o atual prefeito Gean Barros foi condenado por manter trabalhadores em estado análogo à escravidão em suas terras. Com esse tipo de elite política, a agenda ambiental vai se tornando uma “antipauta” eleitoral. Assim, como o eleitorado reage aos sinais enviados pelas lideranças políticas, não é de se espantar que priorizem outras agendas ao votar, em detrimento da ambiental.
Não obstante, as elites políticas não se consolidam ao darem as costas às demandas dos seus eleitorados. Se suas prioridades são outras, além das pautas ambientais, quais são elas? Aqui vou me permitir novamente ir do geral ao particular utilizando dados da PVAAA. A partir deles, foi possível apurar que 70% do público residente na Amazônia avalia como positivas as atividades do agronegócio na região e mesmo que 55% dele estaria disposto a permitir um aumento da área nela permitida para a agricultura. Tais informações desvelam um alto nível de aceitação social dessas atividades na região – o que não ocorre com outras, como mineração e extração de madeira (ambas rejeitadas por cerca de 80% dos amazônidas). Tendo em vista a aceitação geral do agro, há igualmente de se conceber que, em contextos particulares nos quais ele está mais presente economicamente, projetos políticos a ele associados certamente podem ganhar relevância política e, por extensão, aumentar seu apelo frente aos eleitorados.Ao fim e ao cabo, os exercícios de interpretação aqui ensaiados revisitam o tema clássico das relações entre valores, atitudes e visões de mundo e os comportamentos ambientais. Embora os a inserção de indivíduos em um universo valorativo e atitudinal pró-ambiental aumente a probabilidade de comportamentos que valorizem o meio ambiente, inclusive através do ato de votar, há situações em que há dissonâncias entre esses dois polos. Embora os temas ambientais obtenham saliência eleitoral em pleitos nacionais, aqui foram avaliados (de forma bastante preliminar, saliente-se) casos em que as escolhas eleitorais parecem ter seguido outros padrões, mesmo quando a preocupação com eventos como as queimadas estivessem presentes. Portanto, neles, entre o voto e o ambiente enfumaçado pelo fogo, podem ter ficado algumas convicções ambientais.
